Mas e se na verdade Van Gogh pintasse a noite estrelada e inúmeras outras obras mesmo que não houvesse dor, porque não é a dor que o faz criar e sim a sensibilidade ao mundo. Claro, ser sensível pode gerar muito sofrimento- mas uma vez que ultrapassamos a dor o que sobra é um encanto maravilhado e alegre pelo mundo. 

Se Deus Me Chamar Não Vou de Mariana Salomão Carrara foi a leitura do mês do Clube do Livro de Barbacena. E se ser sensível ao mundo significa se inspirar e encantar por tudo que nos atravessa, não poderia ser diferente com esse livro.  

Eu confesso, comecei a leitura com uma expectativa muito alta que não se concretizou. Esperava dor e lágrimas e me peguei rindo alto. No fim senti como se houvesse sido nem mais, nem menos. Mas após a leitura o livro cresceu dentro de mim, em nuances. Foi marinando. 

Percebi que não sofri porque conhecia o fim da história. 

Como Maria Carmem quando criança tive pensamentos suicidas, pensava que seria melhor se eu nem existisse . E assim como ela não havia respaldo na realidade, meus pais e minha família inteira nunca haviam dito ou feito algo para que eu pensasse isso, pelo contrário não tem amor que hoje eu saiba como mais certo. Mas como crianças temos um mundo próprio que processa a realidade de um modo único e sentimental, mais centrado. 

Esse pensamento germinou e cresceu, se tornou a totalidade do meu ser por bons anos, me apeguei a ele e tive medo de mudar, de melhorar, porque era tudo que eu conhecia. 

O livro é narrado por uma criança e cumpre esse propósito belamente e a dor que eu esperava, como na vida, estava nas entrelinhas. E por maior as recordações do passado que foram suscitadas, não sofri. Antes ter sido curada ao me proporcionar a possibilidade de dar colo a minha eu criança, que fez o melhor que pode, interpretou o mundo como sabia. 

Hoje consigo rir dos tais pensamentos catastróficos, olhar com carinho para Maria Carmem, e até com aquele olhar de adulto que sabe que tudo ficará bem e irrita tanto quando somos crianças- como eles podem saber se cada dor é única? 

Porque fica. Ficou. 

Entendo a moda e glória que se encobre a dor, a depressão. O mito do artista sofrido, do intelectual pessimista e angustiado. A ideia de que qualquer manifestação cultural pressupõe uma dor. De que somos diferentes justamente por sofrer. Me apeguei a essas normas por muito tempo, e hoje ao contrário vejo a felicidade como uma das nossas maiores obrigações na vida. 

É claro, há dias ruins, dias que quero socar a cabeça na parede, traumas a serem vistos, erros, anseios e medos. E isso também compõe a beleza de se estar vivo. 

São momentos, e não a vida inteira.

Por fim, não concordo então que Van Gogh só pintou como pintou por sofrer tanto, acredito que pintou assim por possuir tamanha sensibilidade diante do mundo. E ser sensível pode nos fazer sofrer muito, chorar noites sem fim, mas também pode ser nossa grande cura e salvação, e quando persistirmos por tempo o suficiente nos mostra a alegria de se estar vivo, a alegria de encontrar o belo em cada miudeza que nos deparamos pela vida.  

Para todas as Maria Carmem continuem, não levem a vida e nem a si tão a sério, saibam que o Sol sempre volta a nascer e busquem algo para apreciar diariamente, de pouquinho em pouquinho a vida volta a nos preencher. 

Claro, pode ser que como toda doença a depressão leve um dia ao fim e tudo bem. Mas não hoje, hoje pinte um girassol e ria um pouco, acolha a sua Maria Carmem tão humana, tão catastrófica. Um dia de cada vez.

Essa foi a primeira edição do nosso diário do sensível, onde aprendemos a ver o mundo e nos inspirar por tudo que nos cerca, livros, o céu, pessoas, conversas... onde houver beleza estaremos. 

Com amor, Júlia.